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Julho 25, 2010

A nobre dama britânica*

*Texto originado de comentário feito no Blog do Groo.

Fui apaixonado por F-1. Completamente apaixonado. Vivo um casamento que já dura aí, por baixo, uns 20 anos, fácil. Um casamento duradouro com ela, uma nobre dama britânica. Quando a conheci e durante o auge de nosso amor, a dona F-1 era uma mulher respeitada, reconhecida mundialmente; desfrutava de um status aparentemente inabalável. Jamais poderia imaginar que se tratava apenas de uma questão de aparência.

E como dizem, "as aparências enganam". Fui aconselhado, me disseram para largá-la enquanto era tempo. Alguns me alertavam sobre sua má fama. "Qual é a graça de uma relação que só anda em círculos, como se corresse sem sair do lugar?", "Os homens que mais a amaram, heróicos e destemidos, perderam suas vidas graças a ela", ouvia. Mas não me importava. Eu a amava, ela parecia me amar, ou ao menos se importar comigo. Bastava.

Em 2002, depois do GP da Áustria, desconfiei que pudesse estar sendo traído, mas ela me convenceu com argumentos sólidos: o rapaz, um famoso piloto brasileiro, era sabidamente um bunda-mole, falastrão e já tinha um histórico pouco confiável, sem credibilidade. Entre acreditar em um zé mané qualquer e em minha nobre dama, com quem eu já vivia há tantos anos, optei por acreditar nela. Seus argumentos me convenceram.

Em 2009, encontrei um bilhetinho dela para um outro rapaz. Datava de 2008, após uma viagem sua para Cingapura (que tipo de dama britânica arrumaria um amante em Cingapura?). Era para um tal de Nelson Ângelo Piquet. Continha relatos detalhados de fatos fortes, muito fortes. Orgias, que envolviam outros homens, um tal de Briatore, Pat Symonds, um espanhol das Astúrias - este, uma pessoa pública, respeitada mundialmente... Melhor não revelar o nome.

Como era um fato antigo, de 1 ano antes, banquei o corno-manso e resolvi manter meu relacionamento com aquela dama com a qual já estava há quase duas décadas. Era tempo demais para se jogar no lixo um casamento como este por uma história que, apesar de aparentemente verdadeira, tinha ficado no passado. Tudo bem.

Hoje, o pior aconteceu. Dizem que o perdão anula o arrependimento da pessoa perdoada. Perdoei minha nobre dama, a F-1. Mas ela esqueceu-se do arrependimento, da sensação de culpa, e aprontou o pior que poderia aprontar. A história com o tal espanhol das Astúrias, respeitado mundialmente, aconteceu de novo. Não que não fosse previsível. Mas o problema maior é que havia um outro cara no meio da história. Um conhecido meu. Que tinha o meu respeito e minha admiração. Que exibia um discurso afiado, coerente, atitudes fortes e determinadas. Um cara que parecia respeitar minha nobre dama como só os cavalheiros da realeza - independente do grau de nobreza - sabiam respeitar. A prova do crime foi exposta mundialmente. Bilhões de pessoas souberam e viram tudo a olho nu. Não houve jeito, acabei testemunhando, também. No flagra.

Saber de uma traição, vá lá. No jogo de conveniências da vida de um casal, optei por fazer vista grossa. Mas testemunhar uma traição foi demais. Ver com meus próprios olhos o que a mulher que eu respeitei a vida inteira foi capaz de fazer comigo e com todos os que acreditavam nela foi pior do que uma punhalada no coração.

Me conformei de que a nobre dama britânica a quem dediquei duas décadas de amor era uma prostituta, devassa, movida unicamente pelo amor ao dinheiro. Desrespeitosa. "Eu posso explicar", ela disse, diante de quem a acusava frontalmente - e foram muitos, praticamente todos os que assistiram ao lastimável episódio. "A carne é fraca", ela disse. Tive vontade de nunca mais olhar em sua cara.

Mas depois de 20 anos de relacionamento, a verdade é que já não tenho coragem nem força para mudar radicalmente a situação. Decidi que daqui para a frente, deixarei tudo como está. Ela na dela, eu na minha. A paixão acabou, o amor, ídem. Respeito? Nunca mais. Restou apenas a rotina do convívio, nada além disso.

O "até que a morte os separe" ainda continua valendo para mim e para ela, esta nobre dama britânica, a F-1. Até porque, do jeito que ela vive, já sem ter o respeito, a consideração e a credibilidade de quase ninguém e levando uma vida devassa, movida unicamente pelo dinheiro e esquecendo-se completamente de momentos incríveis de nossa história - como nossas viagens por lugares como Estoril, Buenos Aires, a velha Hockenheim, a exótica Kyalami e a bucólica Zandvoort (só para ficar em alguns exemplos) -, esta senhora está cavando a própria sepultura, a passos largos.

Espero, sinceramente e sem nenhum sentimento de culpa, que ela consiga isso. O quanto antes. Assim, pelo menos, não me sentirei culpado por abandoná-la.


6 comentários:

  1. Parabéns cara.

    Não poderia me expressar melhor.

    Abs,

    André

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  2. Que coisa linda tu escrevestes! Quem dera esse texto chegasse às pessoas ligadas diretamente à F1.

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  3. Sensacional, fiquei ate arrepiando.

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  4. Muito bom o texto, parabéns!

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