Guarulhos | A segunda parte do BRF1 Review de hoje recordará o que foi dito por este blog antes do início da temporada e, obviamente, o que de fato ocorreu em 2009. Previsões certas e erradas, comentários dignos de "vergonha alheia", entre outras coisas. As equipes de hoje, de acordo com a ordem designada para este ano, junto com seus respectivos pilotos, serão Toro Rosso, Red Bull, Williams, Force India e Brawn GP.
TORO ROSSO
"É fato que o chassi projetado por Adrian Newey foi um dos responsáveis diretos pela ascenção da STR na segunda metade de 2008, assim como também é fato que o motor Ferrari proporcionou um enorme upgrade ao time, algo que ninguém no mundo da F-1 esperava. Mas também é fato que a equipe jamais chegaria onde chegou se não fosse a capacidade e o talento de Vettel, um piloto completamente diferenciado e que desde a sua chegada à equipe (...) elevou de forma radical o padrão de performance da ex-Minardi. Algo similar ao o que aconteceu em 1984, na Toleman da então promessa Ayrton Senna. (...) Após a saída de Senna, a Toleman nunca mais foi a mesma - ao final de 1985, foi vendida para a Benetton e nunca mais retornou ao grid. Seria a Toro Rosso capaz de manter o mesmo desempenho fantástico de 2008, mesmo após a saída de Sebastian Vettel para a Red Bull? Poucos acreditam nisso..." (BRF1, 25 de Março de 2009) O título deste texto se chama "De volta à realidade". De fato, a Toro Rosso voltou à sua habitual realidade em 2009. Apesar de ter um chassi novamente muito bom, a verdade é que faltou à equipe um piloto fora de série como Sebastian Vettel. O time poderia, sim, sonhar com vôos mais altos nesta temporada. No entanto, andou quase sempre nas últimas posições do grid e terminou em último lugar o Campeonato de Construtores, pontuando esporadicamente com Sébastien Buemi. A queda de rendimento já era esperada, e não se pode dizer que um mau trabalho foi feito, já que o suíço conseguiu algo que Kazuki Nakajima, Nelsinho Piquet e Romain Grosjean, em equipes muito mais fortes, não conseguiram.
SÉBASTIEN BOURDAIS -
"Quase dispensado pela equipe, o francês tem em 2009 a grande chance de mostrar seu verdadeiro potencial, ainda que o carro não repita o desempenho da temporada passada. Será o primeiro piloto da equipe e correrá ao lado de um estreante que não possui grandes referenciais em sua carreira. Não há dúvidas: o desempenho de Bourdais neste campeonato definirá o rumo de sua carreira na F-1." (BRF1, 25 de Março de 2009)Confesso que eu era um dos que ainda acreditava em Bourdais. No entanto, o francês mais uma vez andou muito atrás de seu companheiro de equipe e não esteve nem perto de cumprir o papel de líder da Toro Rosso, algo que Franz Tost, chefe do time, esperava dele. A demissão após o GP da Alemanha se deu via SMS. E, salvo algum grande milagre, suas portas estão definitivamente fechadas na F-1. 2009, de fato, definiu o rumo de sua carreira.
SÉBASTIEN BUEMI -
"Embora não tenha um currículo excepcional, também não pode ser considerado um mau piloto, a julgar alguns bons resultados que teve durante a carreira. Resta saber se o suíço conseguirá manter um desempenho minimamente aceitável para ganhar uma nova chance na categoria em 2010. O que me parece fora de lógica é esperar que ele seja, aos olhos da STR, um "novo Vettel". Raramente um raio cai duas vezes no mesmo lugar." (BRF1, 25 de Março de 2009)Buemi não comprometeu, mas também não brilhou, esta é a verdade. Piloto articulado e inteligente, o suíço aproveitou todas as oportunidades que teve para conseguir bons resultados e encerrou o ano com seis pontos, o que é um saldo bastante aceitável e realístico para um ano de estreia em uma equipe pequena. Além disso, conseguiu protagonizar alguns bons momentos onde mostrou ter bastante perícia ao volante, como no chuvoso GP da China - onde chegou a andar em 3º lugar - e em Abu Dhabi, quando travou um belo duelo com o badalado Robert Kubica e levou a melhor sem ser desleal. Não é um fenômeno, mas teve um desempenho bom o suficiente para ganhar certo respeito no paddock e seguir na Toro Rosso em 2010.
RED BULL
"A equipe (...) já esteve em piores condições, no que diz respeito às suas perspectivas para um campeonato. Sofrendo desde a sua estreia com pilotos inconstantes ou em fim de carreira, a RBR vê em 2009 a possibilidade de viver seus melhores dias na categoria e, aparentemente, ganhou o direito de sonhar alto. Tal expectativa reside especificamente em dois nomes: Adrian Newey e Sebastian Vettel. (...) O primeiro é um consagrado projetista com passagens vitoriosas por Williams e McLaren, enquanto o segundo é visto como o piloto mais completo de sua geração. O casamento entre ambos, aliado a um motor Renault que ficou devendo em 2008 mas que ganhou um valioso upgrade em potência para esta temporada, pode render bons frutos." (BRF1, 26 de Março de 2009) A Red Bull sonhou alto e cumpriu quase todos os seus objetivos, mas pagou um alto preço pela performance irregular dos motores Renault. Aparentemente, o "valioso upgrade em potência" custou confiabilidade aos propulsores franceses. Não fosse isso, talvez o prodígio Sebastian Vettel pudesse ter levado a decisão do campeonato para a última prova, em Abu Dhabi. Apesar disso, foram seis vitórias, quatro ótimas dobradinhas e o vice-campeonato tanto entre os Pilotos quanto entre os Construtores. Uma temporada digna de muita comemoração para um time que, desde os tempos de Stewart, era apenas mediano.
MARK WEBBER -
"Piloto falador, acostumado a declarações polêmicas e afeito a jogos psicológicos para destruir sem dó seus companheiros de equipe, o australiano pode ser uma pedra no caminho de Vettel - sobretudo no confronto direto em treinos classificatórios. Talvez possa até vencer sua primeira corrida na carreira, algo que não seria de todo injusto. Mas certamente será massacrado por seu jovem companheiro de equipe - quanto a isso parece não haver dúvidas." (BRF1, 26 de Março de 2009)Que Vettel tinha tudo para levar a melhor sobre Webber, não havia dúvidas. Que o australiano poderia conquistar sua primeira vitória - e de quebra, foram duas, na Alemanha e no Brasil, ambas em altíssimo estilo -, também poucos duvidavam. Mas o que chamou a atenção, mais até do que o desempenho sólido e convincente deste que foi o quarto colocado no Mundial de Pilotos, foi o banho que o canguru levou de seu companheiro de equipe em treinos classificatórios: em 17 corridas, Sebastian largou à frente de Webber nada menos que 14 (!) vezes, algo impensável para alguém que até 2008 levava a fama de "Leão de Treino". De qualquer forma, o 'aussie' merece todos os elogios por uma temporada bastante consistente e por ter se mantido até mesmo na luta pelo título, depois de anos andando nas posições intermediárias e em uma fase de sua carreira na qual já era dado como um "caso encerrado" à beira da aposentadoria.
SEBASTIAN VETTEL -
"(...) O alemão tem um estilo fantástico de pilotagem: excepcional em piso molhado, é um piloto técnico, arrojado quando necessário, comete pouquíssimos erros e corre riscos calculados. Sua constância durante a corrida também é uma qualidade notável. Junte tudo isso ao fato de ele ter levado um time acostumado a Speeds e Liuzzis da vida, a sentir o gostinho de ser equipe grande e conquistar uma vitória que nem mesmo a própria Red Bull ainda alcançou: o resultado é que temos diante dos nossos olhos aquele que pode ser um piloto tão dominante quanto foi o próprio Michael Schumacher, caso tenha um bom carro em mãos. E, se equipe dos energéticos sonha em ser grande, achou o piloto ideal para conduzi-la até isso." (BRF1, 26 de Março de 2009)Soa quase como uma profecia. Com uma importante exceção: Os erros de Vettel podem lhe ter custado uma chance maior de ser campeão do mundo em 2009. Como na Austrália, quando travou uma disputa desnecessária e alucinada com Robert Kubica e acabou abandonando a prova na penúltima volta, quando tinha o pódio assegurado. Ou como em Mônaco, quando bateu no muro por pura displicência e desmotivação em função das poucas chances que tinha de vencer. A verdade é que o alemão pagou um pouco pela idade e seus erros foram naturais para um quase-novato. Mas de fato, Vettel sempre correu riscos calculados, manteve seu ótimo ritmo de corrida, levou a Red Bull à sua primeira vitória, sempre brilhou na chuva e, com mais três vitórias ao longo do ano, ficou com o merecido vice-campeonato. Quanto mais experiência o alemãozinho ganha, mais nós corremos o risco de assistirmos a campeonatos monótonos como os da Era Schumacher. Não há dúvidas quanto a isso. Em 2009, Vettel se consolidou como piloto de ponta. Seu primeiro título mundial é apenas uma questão de tempo.
WILLIAMS
"A última vitória da Williams foi no GP do Brasil de 2004, pelas mãos de Juan Pablo Montoya. A equipe jamais viveu um jejum de vitórias tão grande quanto esse. Desde que passou a construir seus próprios carros, a equipe venceu pelo menos uma prova por ano entre 1979 e 1987. Em 1988, os fraquíssimos motores Judd impediram que a equipe vencesse, mas o início da parceria com a Renault, em 1989, recolocou o time no caminho da glória - caminho interrompido apenas em 1997, ano do fim da parceria oficial entre a equipe e a marca francesa. Recebendo motores terceirizados até 1999, Sir Frank Williams iniciou em 2000 a parceria com a BMW: entre 2001 e 2004, foram 10 vitórias. Em 2008, porém, a equipe completou 4 temporadas sem um único triunfo. Ao mesmo tempo em que dá sinais de resistência, a Williams parece agonizar e reviver os derradeiros dias da Lotus - de uma das mais importantes e vitoriosas equipes da história da categoria ao silêncio mórbido da falência." (BRF1, 26 de Março de 2009) A temporada de 2009 aumentou ainda mais o jejum de vitórias da Williams: agora são 5 anos sem subir ao lugar mais alto do pódio. Mas além de ter feito uma temporada bastante competitiva, a tradicional equipe inglesa não dá sinais de cansaço. Prova disso é a confirmação do bom veterano Rubens Barrichello e da jovem revelação Nico Hulkenberg como dupla para 2010. Devagar e sem dar passos maiores do que as pernas, a equipe de Frank Williams segue longe das vitórias, mas também longe de dar qualquer sinal de falência. Longe, portanto, de ter o mesmo triste fim da Lotus.
NICO ROSBERG -
"Apoiado desde o início da sua carreira pela equipe inglesa, o filho do campeão mundial Keke Rosberg (...) deu um ultimato à direção da equipe: sem bons resultados, sem renovação de contrato. Imagina-se que este parece ser o caminho mais provável, tanto para a equipe quanto para o jovem piloto - um caso em que certamente quem sairá perdendo será Frank Williams. Afinal, Rosberg ainda faz a diferença nos raros bons resultados da equipe. Sua demissão pode significar, definitivamente, o início do fim da Williams." (BRF1, 26 de Março de 2009)Não havia outro caminho para Rosberg que não fosse utilizar a Williams como trampolim para uma equipe maior. E o alemão foi perfeito nisso. Dono de todos os pontos da equipe na temporada, Nico mais uma vez foi o responsável por levar ao time alguns bons momentos e resultados. Conforme já era esperado, não renovou seu contrato para 2010 e provavelmente já está acertado com a Brawn GP, a nova equipe grande do grid. No entanto, graças à competência quase esquecida de Frank Williams e de Patrick Head, a escuderia de Grove ganhou um enorme diferencial para o próximo ano - sua nova dupla de pilotos - e não deve andar para trás, mas sim, retomar aos poucos o posto de equipe grande que abandonou em 2004. Nico, sem dúvida, tem grande contribuição nisso.
KAZUKI NAKAJIMA -
"Prestes a iniciar sua segunda temporada completa na categoria, Kazuki viverá também em 2009 uma temporada de transição. Bons desempenhos podem garantir a ele algum tipo de sobrevida na categoria para os anos seguintes, a exemplo do que aconteceu anos antes com seu conterrâneo Takuma Sato; maus desempenhos provavelmente fecharão as portas da Fórmula-1 para ele. O caminho não é tão difícil quanto parece; basta ao japonês resolver seu problema crônico de falta de ímpeto e velocidade para se transformar, de fato, em um piloto minimamente competitivo." (BRF1, 26 de Março de 2009)Pois é. Não deu para o japonês. Nakajima só não foi sumariamente demitido da Williams porque a Toyota bancava sua carreira e, consequentemente, sua vaga no time inglês. Mas é inaceitável ver Rosberg marcar 34,5 pontos contra absolutamente nenhum do nipônico. Isso escancara de forma muito clara a falta de competência e de vibração deste piloto. Para piorar a vida de Kazuki, a Toyota - que amparava sua carreira desde as categorias de base - anunciou sua saída imediata da F-1, mas não sem antes deixar o rastro fulminante de outro japonês, Kamui Kobayashi: seu desempenho arrasador foi, simbolicamente, a última pá de terra sobre a carreira de Nakajima na categoria. Provavelmente, nunca mais o veremos por lá. E ninguém sentirá falta.
FORCE INDIA
"Toda a aerodinâmica do VJM02 foi desenvolvida pela própria equipe, o que pode representar, positivamente, um desempenho superior ao da própria McLaren, levando-se em consideração que a equipe terá à disposição um dos motores mais velozes do grid - em um cenário bastante semelhante ao que se viu em 2007, com a extinta Super Aguri: apoiada pela Honda, foi constantemente mais rápida que sua matriz. Chegar aos pontos em 2009 será um grande avanço na trajetória da simpática Force India." (BRF1, 27 de Março de 2009) O texto original fala sobre a parceria entre McLaren e Force India. União que, no início, parecia um verdadeiro tiro no pé, graças à má performance da equipe inglesa no início de 2009. Curiosamente, a ascensão dos indianos ocorreu quase que ao mesmo tempo em que a McLaren começou a se recuperar, o que sugere que, de fato, o desempenho de ambos os times estava interligado. Mas o que fez a diferença para a escuderia de Vijay Mallya, na verdade, foi a aerodinâmica de seu carro. Enquanto a McLaren deitava e rolava em pistas travadas, a Force India sobrava em pistas de alta. Foi assim que, em Spa-Francorchamps, Giancarlo Fisichella chocou o mundo da F-1 ao cravar a pole position. A vitória só não veio por um detalhe: o Kers, que equipava a Ferrari de Kimi Räikkönen. Em 2009, o time indiano ganhou mais do que um pódio e 13 pontos no campeonato: ganhou a simpatia dos fãs da F-1 e assumiu o antigo posto da Minardi como o "xodó" do grid.
ADRIAN SUTIL -
"(...) Com o perdão do trocadilho estúpido, Sutil parece ainda pecar por ter uma pilotagem muito... sutil. Em nenhum momento mostrou ser um piloto arrojado e combativo, ganhando posições mais às custas dos erros dos adversários do que por mérito próprio. (...) Para 2009, deve apresentar um bom salto de rendimento, mas não parece ser o caso do piloto que corre com a 'corda no pescoço': tem-se a impressão de que Adrian terá oportunidade em alguma equipe grande a qualquer momento. Só então será possível avaliar seu verdadeiro potencial." (BRF1, 27 de Março de 2009)O ano de Sutil sepultou algumas imagens que tínhamos a respeito de sua performance. O alemão não foi nada "sutil" quando fez barbeiragens incríveis como nos GPs da Espanha, da Hungria e de Cingapura. Isso sem falar no polêmico incidente de Interlagos, quando sua ausência de culpa é um tanto quanto contestável. No entanto, o delicado Adrian teve como ponto alto na temporada - e em sua carreira - o ótimo desempenho no GP da Itália, quando quase fez a pole position, largou na segunda posição e chegou em quarto, mais uma vez graças ao Kers da Ferrari de Kimi Raikkonen. O finlandês foi perseguido pelo alemão durante absolutamente toda a corrida. É, ainda, cotado em alguma equipe grande. Mas apagou não só a imagem de piloto pouco combativo e técnico quanto a de futuro vencedor de corridas. Embora rápido, Sutil é muito atrapalhado e atrai polêmicas para si.
GIANCARLO FISICHELLA -
"Contratado pela Force India em 2008, Fisichella acostumou-se a viver longe dos holofotes, comete algumas barbeiragens e, vez ou outra, leva seu modesto carro a ocupar posições de destaque - como no último GP do Brasil, quando surgiu na 5ª posição e por lá se manteve durante várias voltas. Às vésperas da aposentadoria, o italiano buscará em 2009 encerrar sua carreira com dignidade, conquistando resultados à altura de seu talento e colocando, assim, um ponto final em sua bela trajetória na Fórmula-1." (BRF1, 27 de Março de 2009)Fisichella conseguiu o inesperado papel de protagonista em 2009. Sua atuação no GP da Bélgica - onde fez a pole position, perseguiu Räikkönen do início ao fim da prova e por muito pouco não venceu - foi, sem dúvida, um dos momentos mais comoventes da temporada. Um daqueles sopros de esportividade que, vez ou outra, dão as caras na F-1: o gigante sendo desafiado pelo sempre desacreditado pequeno. A carreira do italiano poderia ter acabado aí. Ou, quem sabe, com um resultado ainda mais fantástico na etapa seguinte, no GP da Itália, quando a Force India mais uma vez se mostrou um dos carros postulantes à vitória. Fisichella encerraria por cima, como um ídolo quase esquecido. Mas o romano achou que encerrar "por cima" seria aceitar o convite da Ferrari para substituir Felipe Massa já a partir de Monza. E o que se viu, daí em diante, foi um fim melancólico de carreira, sem nenhum ponto e com desempenhos abaixo da média. De 2009, prefiro guardar a imagem do Fisichella que teve um último e solitário brilho em Spa-Francorchamps. Este, sim, merece os aplausos.
BRAWN GP
"Só em Março de 2009 a imprensa acertou um boato a respeito do assunto: Ross Brawn, diretor técnico da Honda, assumiria a equipe em definitivo. Surgia, em meio ao crepúsculo, a Brawn GP. De forma discreta e incerta: a equipe estaria na Austrália, prova de abertura da temporada? Participaria dos últimos testes de pré-temporada, em Jerez e Barcelona? Quais seriam os pilotos? Qual será o desempenho real da equipe, que mal teve tempo para se desenvolver? A velocidade das respostas correspondeu à velocidade dos novos carros da equipe nos últimos testes de pré-temporada. [Bruno] Senna foi preterido pelo outrora demissionário Rubens Barrichello; Jenson Button já era dado como certo na nova equipe inglesa. De todas as surpresas, esta foi a menor. A maior de todas ficou por conta do desempenho arrebatador da equipe durante os testes: em 7 sessões, a Brawn liderou nada menos do que 4 delas! Nas restantes, nunca esteve além do 4º lugar na tabela de tempos. (...) A imprensa mundial coloca a Brawn à frente da lista de favoritos para o GP de abertura da temporada. As casas de apostas britânicas apontam Jenson Button como favorito ao título." (BRF1, 27 de Março de 2009) O começo da temporada causou surpresa e emoção. Estávamos diante de um momento histórico e raro: a vitória de uma equipe em sua corrida de estreia. Mais: com direito a dobradinha tanto no grid de largada quanto no resultado final. Um time que esteve prestes a não existir e que ninguém sabia ao certo se estaria em Melbourne, estreou com um carro quase sem patrocínios e dominou os adversários como quis. Depois disso, a emoção deu lugar ao saco cheio, ainda que o momento continuasse a ser histórico. Foram seis vitórias nas sete primeiras corridas. O campeonato já estava decidido. Em Junho. Mais uma vez, a história foi escrita: nunca, em um ano de estreia, uma equipe conseguiu oito vitórias, seis pole positions e os títulos de Pilotos e Construtores. Ross Brawn sacramentou seu status de gênio. E os que em Março apostaram em Button como campeão devem estar, certamente, ricos.
JENSON BUTTON -
"Atribuir qualquer tipo de favoritismo à Jenson ainda parece fora de lógica. É bem verdade que o inglês só teve um bom carro em 2004, quando a BAR Honda permitiu a ele a possibilidade de conquistar ao menos pole-positions e pódios frequentes. Em 2006, primeiro ano do retorno da Honda à categoria, Button conquistou sua primeira vitória de forma inusitada, em meio a um inesperado temporal no sempre desértico GP da Hungria. A vitória consagradora fazia supor melhores resultados para 2007, mas a temporada seguinte marcou o início do fim da equipe nipônica. Ainda assim, durante toda a sua carreira, o inglês jamais se mostrou um piloto digno de ser campeão do mundo. Falta-lhe o apetite que os bons campeões costumam ter durante uma disputa por título." (BRF1, 27 de Março de 2009)Depois de seis vitórias e de um título mundial por uma equipe estreante, especialmente diante da superioridade imposta sobre seu companheiro de equipe, fica evidenciado o enorme erro cometido nas previsões acerca da temporada de Jenson Button. O mais novo campeão mundial mostrou, sim, o "apetite que os bons campeões costumam ter durante uma disputa por título". Os GPs da Itália e do Brasil, onde conquistou a taça, não me deixam mentir. Mas o britânico mostrou, também, sangue frio para pontuar em 16 das 17 etapas de 2009 e controlar a enorme vantagem adquirida no início do campeonato. Pode não ser o mais brilhante dos campeões, mas é, sim, digno de sua conquista.
RUBENS BARRICHELLO -
"Exímio acertador de carros, participou de forma direta não apenas do desenvolvimento que resultou na boa forma de seu atual time, como também do desenvolvimento dos carros que impuseram à F-1 a maior hegemonia de sua história, em seus tempos de Ferrari. Possui uma técnica acima da média, é combativo quando necessário e, quando está em seu dia iluminado, só não faz chover. Tudo isso sem ter um centralizador Michael Schumacher como companheiro de equipe. Além disso, se é verdade que lhe falta um pouco de ímpeto, também é verdade que lhe sobra talento e motivação extra para (...) conquistar o tão sonhado título mundial. (...) Apoiando-se em sua regularidade, (...) Rubens Barrichello pode, sim, lutar pelo título. (...) Na pior das hipóteses, deve-se esperar uma temporada competitiva e de ótimos resultados - um final de carreira inesquecível, bom o suficiente para apagar sua imagem negativa entre seus compatriotas." (BRF1, 27 de Março de 2009)Rubens Barrichello também derrubou, em 2009, alguns conceitos e estigmas. O brasileiro participou, sim, de forma direta, do desenvolvimento do vencedor BGP001, o que mostra não apenas que Ross Brawn fez muito bem ao contratá-lo como revela o que poucos comentaram até aqui: o casamento entre o dirigente inglês e Barrichello é um casamento vencedor - ainda que o maior beneficiado não seja Rubens. O piloto também foi fiel ao ótimo retrospecto em "seus dias": foi assim que venceu na Itália e em Valência, de forma dominante e iluminada. Sobrou-lhe talento, competência e motivação e, de fato, seus resultados foram tão positivos que lhe valeram a sobrevida na categoria por, no mínimo, mais uma temporada. O brasileiro foi combativo, guerreiro e arrojado, e sai da temporada de 2009 como um dos grandes vencedores do ano. Mas a regularidade que deveria servir como trunfo na luta contra Jenson Button virou-se contra Barrichello. Quando sua primeira vitória chegou, o inglês já havia vencido seis vezes e tinha "infinitos" 26 pontos de vantagem para o brasileiro. Foi aí que o ex-piloto da Ferrari perdeu o título. Confesso que, como a grande maioria, não conseguia ver em Button um centralizador como Michael Schumacher. No máximo, um piloto do mesmo nível de Rubens. Mas o britânico está um nível acima. Seu título mundial é a prova disso.